terça-feira, 3 de abril de 2012

Em Lisboa não há disso

Resido em Lisboa, a maior cidade deste país, grandes edifícios, grandes estradas, montes de alcatrão e mais montes de betão rodeados de montes de calçada. Para quem nasceu no meio do campo, como eu, não há vista mais feia que uma grande cidade. Independentemente das várias vantagens e ofertas da cidade, em termos de vista e satisfação - feliz de quem vive no meio do mato!


Orgulhoso de onde nasci. Como gosto do campo, da natureza, das árvores, do piar dos pardais, do barulho da água da ribeira a correr em direcção ao oceano, do ladrar dos cães na vizinhança em noite de lua cheia. E quando um barulho mecânico quer irromper na calmaria do vazio, faz-se uma festa, vem aí a carreira das 10h30 para levar a população à praça do peixe e à casa do povo para levantar a reforma. Os autocarros nunca lá passam, isso é artimanha citadina. Só aqui passa um expresso, uma ou duas vezes por dia e demora uma eternidade a chegar a essa tal cidade grande que apelidam de Lisboa. Lá ainda se joga à batota num barracão à sombra, ainda se vende peixe pescado no mar longe dos viveiros, ainda se oferece uma saca de maçãs quando um vizinho ajuda na lavoura, ainda é possível trocar uma saca de batatas por uma charrua - longe da vista dos mais novos, a malta jovem só quer saber do papel, e se tiverem fome, comem papel? Lá toda a gente se conhece, todos se cumprimentam na rua e o banqueiro vai ao mesmo café que o sucateiro sem vergonha de lhe apertar a mão e relembrar as tardes em que fugiam da atenção dos avôs para ir atirar pedras aos sapos e correr à volta da barragem ou das tardes em que insistiam em pegar no sacho para ajudar os velhotes a cavar uma leira para plantar batatas e cujo resultado era um banho na ribeira. Em Lisboa não há disso!



O meu castelo está todo partido, de certeza que a autarquia gostava de o restaurar e pôr todo bonito e pimpão para turista ver mas não há fundos e o governo atrasa-se a pagar o que deve. Porém, continuo a adorar aquele castelo que se impõe no alto da colina, de onde os portugueses expulsaram os mouros numa das mais bonitas estratégias militares que já ouvi. Hoje em dia há videojogos cheios de tácticas e filmes medievais com batalhas fantásticas. Pobres coitados, não conhecem uma história a sério, a forma magnífica como os soldados de D. Sancho II subiram a colina camuflados no meio da vegetação apanhando o inimigo desprevenido. "As moitas estão a mexer-se, avó", ainda avisou uma menina mas ninguém ligou e o castelo caiu nessa noite às mãos dos bravos lusitanos. Disto não há na televisão!


Eu próprio, penso na minha terra e tenho vergonha de estar em Lisboa. Sou vítima daquilo que critico, o capitalismo, o consumismo, o elitismo, a rotina e a azáfama de morar numa terra de tanta gente e de ninguém. Foi escolha minha, alimentada por sonhos e objectivos concretos mas todos os dias penso na bonita vista sobre a várzea, lembro-me da minha "avó" falar da monda do arroz e das vindimas, lembro-me do sabor a comida cozinhada no "fogão de lenha", lembro-me das papas de milho nas noites geladas. Estou saudosista. Esta Páscoa não me livro de jogar o dente ao sabor das velhas panelas todas tisnadas. Nem pensem em dar-me comida de supermercado, que eu esta semana quero tudo do melhor.


MF

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