Entre
os muitos aniversariantes do dia de hoje, eu destaco um, Pedro Manuel
Torres.
Pedro
Manuel Torres, nome de guerra: Mantorras. Idade: 30 anos e olhar de
menino, daquele menino que um dia disseram que ia ser um dos melhores
avançados do Mundo. Lembro-me de o ter visto jogar uma única vez,
em 2005 contra o Estoril no Estádio do Algarve. Já na altura o
ex-camisola 9 do Benfica estava em eterna recuperação da lesão que
lhe roubou uma carreira de sonho. Mantorras entrou em campo e os
cerca de 30 mil espectadores levantaram-se para aplaudir o menino
pobre que sonhava jogar à bola. Arrepiei-me quando ele entrou,
apesar de já nem me lembrar de quem saiu ou a que minuto tal
aconteceu. Mantorras entrou em campo sob uma enorme salva de palmas e
foi perante esse mesmo público que tentou fazer o gosto ao pé, sem
eficácia nessa partida. Numa das suas fintas, o avançado pareceu
lesionar-se, vi Mantorras rodar sobre a bola e cair sobre a perna,
tremi, o defesa do Estoril ficou estático, o público calou-se, mas
o Pedro recuperou a postura e voltou a encarar o defesa. Falso
alarme.
Esteve
no Barcelona e, na altura, Mourinho apontou-o como uma certeza de
futuro craque, veio para Portugal e brilhou no Alverca chegando ao
Benfica com 19 anos! Uma malograda lesão retirou-lhe o futuro mas
nunca lhe retirou o brilho no olhar, a alegria com que vestia a
camisola do Benfica, o sorriso com que contemplava os adeptos, a
felicidade com que entrava em campo e o gosto com que marcava e
festejava junto aos benfiquistas.
No
ano em que o Benfica mais precisava de ser campeão, época
2004/2005, Mantorras foi o herói dos golos tardios, dos pontos úteis
que deram a vitória no final. Não tenho quaisquer dúvidas, em
relação tempo jogado - importância para o título, Pedro Mantorras
foi o melhor jogador do campeonato. Era rápido com e sem bola,
aparecia no limite do fora-de-jogo, tinha frieza na altura de encarar
o guarda-redes, rematava sem aviso prévio e sem pedir licença,
passava a bola, defendia, corria atrás da redondinha como se fosse
um miúdo, aliás, era um miúdo com fome de bola e um dos maiores
talentos que África viu nascer. Paíto, ex-defesa-esquerdo do
Sporting ainda se deve lembrar da última vez que defrontou o Pedro.
Sempre que o angolano descaía para a lateral de Paíto algo de
mágico acontecia, Paíto não deve ter esquecido as inúmeras fintas
e um último túnel de Mantorras, eu não esqueci.
Lesionou-se
muito cedo, cortaram-lhe as esperanças e os sonhos, porém,
continuou a querer jogar futebol. Sempre que foi chamado, correspondeu com entrega e golos. Continuou a treinar, foi operado
diversas vezes e voltou a calçar as chuteiras numa esperança
apagada de vir a ser o jogador que todos os benfiquistas sabiam que
ele iria ser, o próximo Eusébio.
Merecia
ter jogado um segundo que fosse nas últimas épocas, merecia um
lugar de honra no Benfica, merecia uma estátua ao lado do Eusébio,
merecia um joelho novo e uma nova oportunidade. Por tudo o que fez em
tão pouco tempo tenho pena de não ter visto o Mantorras nos palcos
que lhe estavam destinados. Durante todo este tempo no Benfica nunca
baixou a cabeça. Não saiu pela porta da frente nem pela porta do
fundo, saiu pela porta lateral, contudo, merecia um último jogo, uma
última coroação, um último troféu. Deu às águias o título
mais importante das últimas décadas e a sua alegria contagiante fez
sorrir até nos momentos mais complicados da história do clube.
Parabéns
pelos bons momentos de futebol que deste ao futebol português,
parabéns por teres voado alto, parabéns por teres mantido a
humildade em campo, parabéns pelo jogador que foste, parabéns Pedro
Manuel Torres, parabéns Mantorras!
Texto por MF, adaptado de um antigo texto
escrito em 2010, quando foi anunciado que o futuro de Mantorras como jogador do Benfica, tinha terminado.