quarta-feira, 21 de março de 2012

Hoje venci o 36!


Esta terça-feira vai ficar para a história como o dia em que venci o 36! Espectacular, não acham? Eu, com 75kg e muito em baixo de forma, venci o 36! A sério! Para aqueles que não estão habituados à vida rotineira da grande capital, 36 é uma das carreiras da rede Carris, e eu, meus amigos, fui mais rápido que uma carreira da Carris, por duas vezes!!!

Tudo começou quando me pediram para dar um saltinho a um local para os lados de Campo Grande. Acedi e preparei-me para o que, pensava eu, seria uma viagem calma. Contudo, mal pus os pés na rua, o meu olhar de falcão avistou a carreira, junto à paragem e com o pisca ligado a indicar que estava de partida. Corajosamente, não me deixei desanimar e lancei as pernas ao vento, desviando-me de velhotas e buracos de calçada. Num ápice colei-me à porta mesmo antes de o motorista a fechar. “Toma lá Carris, levei a melhor e nem tive de suar!”. Mais tarde percebi que só me tinha safado por causa dos “picas”. Estavam a autuar uma senhora e entre desculpas e falinhas mansas a porta manteve-se escancarada à minha espera. Não me importei, o meu ego falou mais alto e o mérito era meu. Por momentos recordei os tempos em que vestia calções de licra e calçava ténis de bicos, é verdade, já fui um atleta, dos fraquinhos. Lá segui a viagem, com um sorriso de vencedor nos beiços. 

Fiz o que tinha a fazer e preparava-me para regressar quando, já à luz do dia, o meu olhar de águia real voltou a avistar... o 36! Ajeitei o casaco e, muito elegantemente, sim eu tenho um correr bastante elegante, parti em nova corrida contra o tempo. Saltei na frente de um táxi, pulei um muro(que confesso ter sido apenas para o estilo pois um metro ao lado já não havia muro mas porra, era a minha tarde de glória), e rapidamente me pus junto à paragem. Por maldição dos céus, não cheguei a tempo. Se desisti? Esta era a minha tarde de glória, eu ia vencer novamente! Mirei o horário num instante, a próxima paragem era perto e existia a possibilidade de a carreira parar nuns semáforos. Vi uma chance, uma hipótese, uma luz ao fundo do túnel, não baixei os braços e fui acelerando até não poder mais. O semáforo estava verde mas o cruzamento estava impedido. “Força, eu consigo!”, gritei silenciosamente para as minhas pernas e esgueirei-me por entre o trânsito. A carreira arrancou e voltou a colocar-se na frente, respirei fundo e meti a quarta velocidade, já tinha meio pulmão de fora e a visão começava a ficar turva, tão turva que quase não vi um dejecto canino, juro que parecia um lince a desviar-me de tal obstáculo. Finalmente vislumbrei a paragem, qual oásis, com direito a água potável, um coqueiro, dois camelos e uma marroquina na dança do ventre. Num último fôlego alcancei o malandro, ali prontinho para discutir a vitória no video finish. Ironia do destino, estava uma fila enorme à espera e ainda demorou até chegar a minha vez. Mas o que importava era a minha corrida triunfal, o suor, a respiração ofegante, o sorriso confiante, e até galã, nos beiços. Já não fazia 600 metros àquela velocidade desde a puberdade.

Hoje deito-me descansado. Um campeão. Poucos podem dizer que venceram a Carris duas vezes num só dia, pois eu, faço parte dessa pequena percentagem, dessa elite. Deixem-me só colocar uma música de Queen aleatoriamente, pode ser “We are the Champions”, e vou fazer ó-ó que bem mereço.

MF

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