Esta terça-feira vai ficar para a
história como o dia em que venci o 36! Espectacular, não acham? Eu,
com 75kg e muito em baixo de forma, venci o 36! A sério! Para
aqueles que não estão habituados à vida rotineira da grande
capital, 36 é uma das carreiras da rede Carris, e eu, meus amigos,
fui mais rápido que uma carreira da Carris, por duas vezes!!!
Tudo começou quando me pediram para
dar um saltinho a um local para os lados de Campo Grande. Acedi e preparei-me para o
que, pensava eu, seria uma viagem calma. Contudo, mal pus os pés na
rua, o meu olhar de falcão avistou a carreira, junto à
paragem e com o pisca ligado a indicar que estava de partida.
Corajosamente, não me deixei desanimar e lancei as pernas ao vento,
desviando-me de velhotas e buracos de calçada. Num ápice colei-me à porta mesmo antes de
o motorista a fechar. “Toma lá Carris, levei a melhor e nem tive
de suar!”. Mais tarde percebi que só me tinha safado por causa dos
“picas”. Estavam a autuar uma senhora e entre desculpas e
falinhas mansas a porta manteve-se escancarada à minha espera. Não
me importei, o meu ego falou mais alto e o mérito era meu. Por
momentos recordei os tempos em que vestia calções de
licra e calçava ténis de bicos, é verdade, já fui um atleta, dos
fraquinhos. Lá segui a viagem, com um sorriso de vencedor nos
beiços.
Fiz o que tinha a fazer e preparava-me para regressar quando, já à luz do dia, o meu
olhar de águia real voltou a avistar... o 36! Ajeitei o casaco e, muito elegantemente, sim eu
tenho um correr bastante elegante, parti em nova corrida contra o
tempo. Saltei na frente de um táxi, pulei um muro(que confesso ter sido apenas para o estilo pois um metro
ao lado já não havia muro mas porra, era a minha tarde de
glória), e rapidamente me pus
junto à paragem. Por maldição dos céus, não cheguei a tempo. Se
desisti? Esta era a minha tarde de glória, eu ia vencer novamente! Mirei o horário num instante, a
próxima paragem era perto e existia a possibilidade de a carreira
parar nuns semáforos. Vi uma chance, uma hipótese, uma luz ao fundo
do túnel, não baixei os braços e fui acelerando até não poder
mais. O semáforo estava verde mas o cruzamento estava impedido.
“Força, eu consigo!”, gritei silenciosamente para as minhas pernas e
esgueirei-me por entre o trânsito. A carreira arrancou e voltou a colocar-se
na frente, respirei fundo e meti a quarta velocidade, já tinha meio
pulmão de fora e a visão começava a ficar turva, tão turva que quase não vi um dejecto canino, juro que
parecia um lince a desviar-me de tal obstáculo. Finalmente
vislumbrei a paragem, qual oásis, com direito a água potável, um
coqueiro, dois camelos e uma marroquina na dança do ventre. Num
último fôlego alcancei o malandro, ali prontinho para discutir a
vitória no video finish.
Ironia do destino, estava uma fila enorme à espera e ainda demorou
até chegar a minha vez. Mas o que importava era a minha corrida triunfal, o
suor, a respiração ofegante, o sorriso confiante, e até galã,
nos beiços. Já não fazia 600 metros àquela velocidade desde a
puberdade.
Hoje
deito-me descansado. Um campeão. Poucos podem
dizer que venceram a Carris duas vezes num só dia, pois eu, faço
parte dessa pequena percentagem, dessa elite. Deixem-me só colocar
uma música de Queen aleatoriamente, pode ser “We are the
Champions”, e vou fazer ó-ó que bem mereço.
MF
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