Inicio esta exposição de ideias vulgarmente tratada por
texto a lançar uma “padrada” à “língua de Camões”. E numa só frase me perco em
ideias perdidas à toa neste pedaço de corpo a que eu chamo cabeça. Porquê
chamar “língua de Camões” ao português? Porquê lançar uma “padrada” quando a
palavra correcta seria pedrada e mesmo assim já cheira a calão? Porquê falar em
texto e não em “post”? E porquê o uso de “aspas” ? E porquê a repetição do
porquê? E mais um ponto de interrogação e mais um “e”... porra! Exclamo contra
mim, e que raio quero dizer com isto? E pronto, outro “e”, mais “aspas” e outra
interrogação...
Que é um “post”? Não vou mentir e fingir-me
santo, também eu cedo aos estrangeirismos várias vezes ao dia, também sei
hablar e speakar e até sprechar noutras línguas, desenrasco-me razoavelmente
bem e não escuso puxar aos estrangeirismos para me
fazer compreender. Porém, eu, português orgulhoso em ser algarvio, não falo a língua de
Camões. Falo inglês, dou uns toques no alemão e pontapeio um pouco de portunhol
mas não falo a língua de Camões. A língua de Luís Vaz está morta há alguns séculos. Aliás, arrisco-me a dizer que a língua de
Camões é um estrangeirismo. Admito que, por esta altura, já me tenham chamado
de idiota, aceito e contesto, tenho esse direito e pretendo usá-lo. Então não é
que a língua de Camões está para o português como a língua de Cervantes está
para o castelhano ou a língua de Shakespeare para o inglês ou a língua de Dante
para o italiano? Alguém começou e os restantes adaptaram à sua realidade
partindo do mesmo pressuposto. Para mim, enquanto a liberdade de expressão me
permitir, isto é uma espécie prima de estrangeirismo.
Vivemos numa pequena aldeia global onde a nossa língua continua a ser falada na Europa, em África, na
América do Sul e lá para o Oriente. Utilizam-se expressões próprias, mais “facto”
menos “fato”, mas ainda existe uma pontinha a Luís Vaz um pouco por todo o
lado. Há dias li um texto de uma pessoa séria num meio nacional que dizia ser
estúpido o português ter um acordo ortográfico único quando o inglês ou o
espanhol tinham dezenas de variantes. Realmente é estúpido. Já os
estrangeirismos são mais que muitos e é quase impossível passar um dia sem
recorrer a eles. Eu só tomei consciência que estava a ser engolido pelos
estrangeirismos quando deixei de rir e comecei a dizer “LOL” quando achava
graça a alguma coisa. Que idiotice. “Venham de lá os hahaha e os hehehe,
devolvam-me as onomatopeias”, disse para mim. Desde então, voltei a rir
normalmente. Até irrita contar uma piada e ouvir um “LOL”
invés de uma valente gargalhada.
Nesta aldeia global a língua de Queirós está a ser tomada de
assalto pelos estrangeirismos. Não é mau, muito pelo contrário. Essas palavras
que vamos buscar a outros dialectos aproximam-nos do resto do mundo. Que faríamos
nós sem conhecer os estrangeirismos? Voltando ao acordo ortográfico, não é um
avanço mas sim um retrocesso de um povo mesquinho e picuinhas. Em vez de acordo
ortográfico mais valia acrescentar meia dúzia de estrangeirismos ao dicionário
e ficava ok.
"Padrada" atirada por MF
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