sábado, 3 de março de 2012

Sem medo de represálias - Não gosto dos Oscares


Não sou cinéfilo. Raramente concordo com os críticos. Não gosto de filmes que antes de estrear já são candidatos aos Óscaros. Nunca vi o E.T. e não chorei a ver o Toy Story 3. O meu filme preferido é Ice Age. E ai daquele que fale mal do Scrat, que eu parto logo para a violência. Adoro filmes de animação e comédias e violência gratuita e estórias enleadas e finais inesperados. Não sou cinéfilo e acrescento ainda, não percebo grande coisa de cinema. Por isso, não vou falar dos Oscares. Alguém irá falar dos Oscares, dos vestidos das raparigas, dos discursos emotivos, das pindéricas que não se arranjaram o suficiente para a cerimónia, das ressabiadas que não apareceram porque já estavam à espera de não ganhar a estatueta. Os críticos de moda falam das bem vestidas e humilham com palavras de desprezo aquelas que não souberam vestir Prada ou Dolce Gabbana. Ninguém liga aos cavalheiros, qualquer camisa e casaco passa por vestimenta apropriada, já as mulheres passam de senhoras a rebeldes num centímetro de cabelo ou de elegantes a pindéricas num centímetro de vestido. O homem está sempre bem. Menos bem ou mais bem, mas bem. Os críticos de cinema falam dos vencedores, dos quais já tinham falado seiscentas vezes mas que, porque venceram, são justos vencedores. Os críticos de televisão falam do apresentador e das suas piadas. Enfim, não ligo a isso, não perco o meu tempo a ver a cerimónia e passo à frente nessas folhas dos jornais. Não sou rebelde, simplesmente não gosto. É apenas uma estatueta cujo merecimento é decidido por seres humanos. No mundo democrático não existe vencedores justos porque até os eleitores são escolhidos pelo “sistema”.
Ora, tudo isto para falar sobre o detective que há em mim. Estava eu no outro dia a laborar quando ouvi um choque, uma pancada, um estrondo. Tentei conter-me, tentei não ligar. “Não se passa nada, não me vou levantar, vou lá ver, não vou nada, fico aqui, vou levantar-me, já não há nada para ver”, fui fraco e fui à janela ver o que se passava.
Situação: um veículo pesado de transporte de passageiros com a roda da frente no passeio e um veículo ligeiro de classe média-alta atravessado à sua frente.
Primeiro diagnóstico, qual detective inglês do século XIX com chapéu de côco na cabeça, gabardina comprida e cachimbo ao canto da boca: Dear Watson, o malandro do motorista abalroou o sujeito do veículo ligeiro um!
Chega a autoridade, um polícia que estava ali perto, e manda seguir o autocarro que afinal não tinha qualquer interferência na ocorrência.
Situação: três veículos ligeiros com danos. Veículo um – traseira amachucada; veículo dois – frente danificada; veículo três – chassis frontal todo partido, porta-bagagens para dentro e vidro traseiro espalhado pela estrada. Escusado será dizer qual era o carro mais pobre nesta brincadeira.
Segundo diagnóstico, com chapéu de côco na cabeça, cachimbo na mão esquerda e indicador direito a apontar na direcção do culpado: o sujeito do veículo dois embateu no veículo três que foi projectado contra o veículo um e acabou num reboque barato.
Tudo normal, os bombeiros limparam os vidros, a situação ficou resolvida com a chegada de mais dois carros da autoridade, o trânsito voltou a circular e eu tive de voltar ao meu posto. Contudo, voltei a sentar-me com sentimento de dever cumprido. Eu solucionei o caso, que talvez nunca tenha chegado a existir. 
“Dear Watson, another case solved. Two pints. You pay.”.

MF

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