Não sou cinéfilo. Raramente concordo
com os críticos. Não gosto de filmes que antes de estrear já são
candidatos aos Óscaros. Nunca vi o E.T. e não chorei a ver o Toy
Story 3. O meu filme preferido é Ice Age. E ai daquele que fale mal
do Scrat, que eu parto logo para a violência. Adoro filmes de
animação e comédias e violência gratuita e estórias enleadas e
finais inesperados. Não sou cinéfilo e acrescento ainda, não
percebo grande coisa de cinema. Por isso, não vou falar dos Oscares.
Alguém irá falar dos Oscares, dos vestidos das raparigas, dos
discursos emotivos, das pindéricas que não se arranjaram o
suficiente para a cerimónia, das ressabiadas que não apareceram
porque já estavam à espera de não ganhar a estatueta. Os críticos
de moda falam das bem vestidas e humilham com palavras de desprezo
aquelas que não souberam vestir Prada ou Dolce Gabbana. Ninguém
liga aos cavalheiros, qualquer camisa e casaco passa por vestimenta
apropriada, já as mulheres passam de senhoras a rebeldes num
centímetro de cabelo ou de elegantes a pindéricas num centímetro
de vestido. O homem está sempre bem. Menos bem ou mais bem, mas bem.
Os críticos de cinema falam dos vencedores, dos quais já tinham
falado seiscentas vezes mas que, porque venceram, são justos
vencedores. Os críticos de televisão falam do apresentador e das
suas piadas. Enfim, não ligo a isso, não perco o meu tempo a ver a
cerimónia e passo à frente nessas folhas dos jornais. Não sou
rebelde, simplesmente não gosto. É apenas uma estatueta cujo
merecimento é decidido por seres humanos. No mundo democrático não
existe vencedores justos porque até os eleitores são escolhidos
pelo “sistema”.
Ora, tudo isto para falar sobre o
detective que há em mim. Estava eu no outro dia a laborar quando
ouvi um choque, uma pancada, um estrondo. Tentei conter-me, tentei
não ligar. “Não se passa nada, não me vou levantar, vou lá ver,
não vou nada, fico aqui, vou levantar-me, já não há nada para
ver”, fui fraco e fui à janela ver o que se passava.
Situação: um veículo pesado de
transporte de passageiros com a roda da frente no passeio e um
veículo ligeiro de classe média-alta atravessado à sua frente.
Primeiro diagnóstico, qual detective
inglês do século XIX com chapéu de côco na cabeça, gabardina
comprida e cachimbo ao canto da boca: Dear Watson, o malandro do
motorista abalroou o sujeito do veículo ligeiro um!
Chega a autoridade, um polícia que
estava ali perto, e manda seguir o autocarro que afinal não tinha
qualquer interferência na ocorrência.
Situação: três veículos ligeiros
com danos. Veículo um – traseira amachucada; veículo dois –
frente danificada; veículo três – chassis frontal todo partido,
porta-bagagens para dentro e vidro traseiro espalhado pela estrada.
Escusado será dizer qual era o carro mais pobre nesta brincadeira.
Segundo diagnóstico, com chapéu de
côco na cabeça, cachimbo na mão esquerda e indicador direito a
apontar na direcção do culpado: o sujeito do veículo dois embateu
no veículo três que foi projectado contra o veículo um e acabou
num reboque barato.
Tudo normal, os bombeiros limparam os
vidros, a situação ficou resolvida com a chegada de mais dois
carros da autoridade, o trânsito voltou a circular e eu tive de
voltar ao meu posto. Contudo, voltei a sentar-me com sentimento de
dever cumprido. Eu solucionei o caso, que talvez nunca tenha chegado
a existir.
“Dear Watson, another case solved. Two pints. You pay.”.
MF

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