quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Nós, portugueses, somos mansos!


Texto escrito por MF.

Caro leitor, antes de ler, semicerre os olhos, franza o sebrolho, arreganhe um bocado os dentes, odeie o que vai ler. Pense no seu chefe se isso o ajuda a estar irritado, pense que o seu clube perdeu, pense que a crise veio para ficar e que o Zé Castelo Branco é um homem! Sinta o calor a subir pela espinha, aquela vontade de partir qualquer coisa (atenção: não parta nada pois o autor deste texto, eu, não se responsabiliza por nada do que aconteça desse lado do monitor) e grite com toda a gente, ofenda a primeira pessoa que lhe apareça à frente! Revolte-se!!!
Entrei no outro dia num café para beber uma bica e lá estavam três reformados a ler o Correio da Manhã e a falar sobre a Troika. Entre um saudoso “se fosse no nosso tempo” e um humilde “se eu não tivesse à rasca das costas ia lá tratar-lhes da saúde”, aquela mesa definhava o rumo de Portugal. A sério, acreditem no que vos escrevo. Por azar não consegui descobrir o plano para tirar o país da crise pois chegou um novo parceiro, salvo seja, e lançaram-se ao jogo do IKEA (a sueca... mas que bela piada que eu me lembrei). O futuro do país, afinal, pode esperar.
Nós, portugueses, somos mansos como a tia do Francisco Louçã (n.d.MF. Frase proferida por José Sócrates em Abril de 2010). É a verdade. Somos tão mansos que até a nossa grande revolução foi feita sem violência e com cravos à mistura. Uma manifestação portuguesa é um ajuntamento de desocupados com a companhia do senhor que vende o Borda d'Água. Que país é este? Foram os antepassados destes mansos que expulsaram os romanos da Península Ibérica? Que seguiram um minorca de 1,40m e o ajudaram a bater na mãe? Que viram uma mulher com um pau enfiar uma remessa de espanhóis num forno de lenha? Que se lançaram ao mar em cascas de nozes e descobriram os Açores, a Madeira ou o Brasil? Que, mesmo com o rei a fugir para o Brasil, afinfaram três coças ao Napoleão? Que foram pioneiros a abolir a pena de morte? Que nunca se encolheram perante as ameaças forasteiras e controlaram grande parte do mundo ocidental? Que país é este? Que país é este que se deixa governar por um bando de engravatados num ajuntamento de nome russo? Que país é este que se esqueceu de que país é?
Sou contra a violência, ou, por outras palavras, sou um medricas. E, como tal, imagino o que o poder das palavras e dos gestos podem proporcionar. Imagino, como seria Portugal se fosse dirigido por um não-político. Como seria Portugal se tivesse um líder como o Mourinho no poder? Ou um dirigente como Pinto da Costa? Ou um estratega como Carlos Coelho? Ou um investigador como Vasco Mantas? Ou uma empresária como Sandra Correia? Serei eu tão parvo porque vejo em Portugal tanta riqueza? D. Afonso Henriques fundou uma nação rica e D. Sancho I teve a ousadia de conquistar o Algarve. Tanta riqueza que eu vejo. O clima, as magníficas praias, os terrenos férteis, a gastronomia, a riqueza que os nossos antepassados nos deixaram como o Mosteiro dos Jerónimos ou o Convento de Mafra. A sardinha e a feijoada à transmontana, a pêra rocha e a batata doce, o perceve e a azeitona, o moscatel e o vinho do Porto, a cortiça e o corridinho, a telha e a chaminé do Algarve, a cerâmica e o galo de Barcelos, o tapete de Arraiolos e a guitarra portuguesa. 




O Eça de Queirós, o Saramago, o Vasco da Gama, o Marquês de Pombal, o Luís de Camões, o Aristídes de Sousa Mendes, o Fernando Pessoa, a Amália, o Zeca Afonso, o Manoel de Oliveira, o António Champalimaud, o Gil Vicente, a Sophia de Mello Breyner, o Egas Moniz. O Eusébio, o Pedro Flores, o Tony Carreira, o Herman José, o José Cid, a Mariza, a Paula Rego. E podia continuar mas acho que o leitor já percebeu a minha ideia. Somos mais pequenos? Somos mais burros? Somos mais preguiçosos? Somos menos lutadores? Eu, na minha inocência e parca sabedoria, respondo que não e não tenho medo de ser chamado à prova oral!
Agora, que calculo ter prendido a atenção do leitor, deixo para trás as perguntas retóricas e questiono o leitor à séria: Que raio de país é este? Não é a gritar na rua que vamos sair da crise (que me desculpe o camarada Jerónimo que continua a discursar em manifestações), não é a chamar nomes ao político que abre o noticiário das 8, não é a “conspirar” no café, não é a bater na mulher porque não temos dinheiro para pagar a TDT. É preciso ir à luta. Consumir o que é português, produzir e exportar o que temos de bom, convencer os estrangeiros a vir cá gastar os seus trocados e criar condições para que os nossos médicos, os nossos cientistas, os nossos gestores, os nossos empresários e todos os cérebros da nação não nos abandonem porque somos mansos.

PS: para quem encontrou nomes desconhecidos neste texto - vá ao motor de busca Sapo, que é português e terá todo o prazer em lhe dar a conhecer algumas mentes brilhantes deste país.

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