s.
f.
1. Acto,
arte, modo de cultivar.
2. Lavoura.
3. Conjunto
das operações necessárias para que a terra produza.
4. Vegetal
cultivado.
5. Meio
de conservar, aumentar e utilizar certos produtos naturais.
6. [Figurado]
Aplicação do espírito a (determinado estudo ou trabalho
intelectual).
7. Instrução,
saber, estudo.
8. Apuro;
perfeição; cuidado.
Na teoria, cultura (o ponto 7 será o
mais indicado para agora) deveria estar ao alcance de todos. Portugal
precisa de jovens, e adultos, instruídos, com educação, com
ambição, entre muitas outras qualidades apreciadas, e com cultura.
Toda a gente pensa isso. A minha avó, que por força da sua vontade,
sabe ler, mas não conhece Marx ou Descartes e talvez nunca tenha
entrado num cinema ou assistido a uma peça de teatro e pouco conhece
de música para além do belo baile, contudo, é a primeira a me
encorajar a ler um livro ou a ir ao cinema com os meus amigos. E
porquê? Porque sabe a importância que a “cultura” tem nos dias
de hoje e a importância que terá no meu futuro.
Ainda me lembro de passar férias em
casa da minha avó, que muito orgulhoso digo que fica no monte e
longe de tudo, e trocar um livro por um jogo de futebol na televisão.
Era fatal, vinha puxão de orelhas! “Que te ensina a bola? Estavas
tão entretido a ler o livro que te ensina muito mais”, dizia ela.
Sem maldade, pois sempre soube que o desporto era a minha grande
paixão e, quando mais tarde enveredei por uma área desportiva nos
meus estudos e ofícios, foi com alegria que me deu forças. Contudo,
o simples princípio que uma senhora com pouca instrução, penso que
terminou a antiga quarta classe entre o cuidar do gado e as tarefas
do campo, apresenta é extraordinário. Ela tem pena de não ter lido
mais livros, de não ter viajado mais, de não ter falado com mais
pessoas, de não ter aprendido mais. E, por isso, quer que os seus
netos saibam mais e mais.
Faz um ano que deixei a cidade onde
estudei. Último semestre com direito a estágio e abalei para
Lisboa, atrás da minha vontade – assessoria de comunicação
desportiva. Lembro-me que na altura, como qualquer neto babado, me
fui despedir da minha avó. Mesmo sabendo que eu não ia assim para
tão longe, e até já tinha estudado fora, a pobre senhora com
semblante carregado de muitos anos de tristezas, e alegrias, e mãos
enrugadas puxou-me contra o seu peito e apertou-me com força. A
sério, naquele momento senti-me um Homem, como se estivesse a fazer
as malas para partir para a tropa ou para a Guerra do Ultramar. Numa
versão mais rebuscada do momento, direi que senti um calor enorme a
ser transmitido naquele apertão. Desde então, sempre que lá vou
encontro uma simpática velhota que me questiona com um olhar
penetrante, como se tentasse absorver em mim os conhecimentos das
minhas vivências. Faz-me acreditar que, nascido num outro leito,
poderia ter sido directora de uma empresa, tinha vontade e
inteligência para tal. No entanto, não teve oportunidade de estudar
mais, de aprender mais, de adquirir mais cultura, e trocou o cultivo
da mente pelo cultivo da terra, o computador pela enxada e a escola
pela lavoura.
E isto remete-me para o primeiro ponto
desta publicação (ou post para a malta jovem que se rendeu
aos estrangeirismos): a cultura. Eu estudei mais que a minha avó, vi
mais filmes, li mais livros, viajei mais (mesmo sem nunca ter ido
mais longe que Córdoba ou Badajoz), conheci mais pessoas. E porque
raio estou a falar no passado? Tenho 22 anos, uma vida pela frente,
talvez duas vidas pela frente, tenho tanto para ler, ver, ouvir,
dizer ou cheirar, mas falei no passado. Mas sinto que me querem
cortar as asas. Ora, já fui um perdido pela cultura. O facto de
entrar numa livraria ou num cine-clube era um atentado à minha
carteira. Sempre que ia a uma livraria, comprava um ou dois livros. Independentemente do seu conteúdo, era cultura e conhecimento que eu
estava a comprar. Há cerca de dois anos, deixei de entrar em
livrarias. A razão? A carteira, pobre coitada não está em
condições de sofrer mais atentados. A comida na mesa, as contas da
casa e o alimento do veículo levam tudo e o fim do mês é um oásis.
Como se não bastasse, vêm de lá os mandões pedir esforços à
malta. De um lado oiço incentivos aos estudos, ao cultivo da mente.
Do outro lado, vejo as propinas a aumentar (deste mal já me safei) e
vejo o iva a subir na cultura e no entretenimento. Neste carrossel de
contradições, valha-nos o vinho que manteve o iva baixinho. E bem
precisamos de uma boa pinga, para que as palavras dos mandões façam
sentido. Avó, prepara-me um garrafão de vinho para eu meter na
mala, antes que a ASAE feche a adega por falta de condições...
MF

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